A Alegoria
da Biga
Um cocheiro, dois cavalos, e uma briga que acontece dentro de você todo dia.
Esta semana, quantas vezes você fez
o que tinha decidido não fazer?
A alma se parece
com uma carruagem.
“Imaginemos, pois, a alma como uma força mediante a qual são mantidos naturalmente reunidos uma parelha de cavalos e um cocheiro, sustentados por asas.”
Três, e você é os três.
Uma biga com um cavalo só não sai do lugar.
O retrato dos
dois cavalos
Este obedece só à palavra.
“O cavalo de melhor aspecto tem um corpo harmonioso e bonito; cor branca, olhos pretos; ama a honestidade.”
E este aqui é surdo.
“O outro, o mau, é torto e disforme; segue o caminho sem deliberação; tem um focinho achatado e a sua cor é preta.”
Nenhum dos três
quer coisa errada.
| Quem | O que pede | Como pede | Quando manda sozinho |
|---|---|---|---|
| Cocheiro | Ir para o lugar certo | Pensa, calcula, adia | Vira paralisia: planeja a vida inteira e não sai do lugar. |
| Cavalo branco | Honra, coragem, mérito | Basta uma ordem | Vira orgulho: faz o certo para ser visto fazendo o certo. |
| Cavalo preto | Prazer, descanso, alívio | Puxa, e não escuta | Vira o dia seguinte que você não queria ter. |
O cavalo dispara.
O cocheiro puxa.
O preto avista o que quer e sai. O cocheiro puxa a rédea com tanta força que fere a boca do animal. O branco se encolhe de vergonha. O preto cede, se acalma — e na próxima vez puxa de novo, mais forte.
Não existe uma vitória só. Existe a mesma briga, amanhã.
Ele acertou o desenho
sem nunca ver um cérebro.
O sistema rápido
Circuitos profundos de recompensa e de ameaça respondem em milissegundos, antes de qualquer raciocínio. Eles não deliberam: puxam.
O sistema lento
O córtex pré-frontal planeja, adia e inibe. É devagar por natureza, e é a última região do cérebro a terminar de amadurecer.
A obra ainda está em andamento
Nesta idade o que puxa já está pronto e o que freia ainda está sendo montado. Não é defeito de vocês: é cronograma de construção.
Isto é semelhança de arquitetura, não de anatomia. Não existe um cavalo preto desenhado em lugar nenhum do cérebro.
Guardem o argumento que fez alguém mudar de lado.
Platão não manda
matar o cavalo.
Ele manda atrelar. A carruagem anda com a força dos dois, e o preto é o mais forte dos dois. Quem arranca o desejo de si não vira santo: fica sem tração.
Quem quer ir longe precisa do cavalo que puxa.
Quatro cenas
de uma terça-feira.
O despertador toca pela terceira vez
Você tinha decidido ontem. Agora tem um argumento novo e muito convincente sobre por que hoje é diferente.
Ele fala alto com você no corredor
A resposta perfeita chega pronta na boca em menos de um segundo. E ela não vem do cocheiro.
Faltam duas listas e o celular acende
Cinco minutos, você jura. O relógio marca quarenta.
Amanhã tem prova e você continua rolando
Você sabe exatamente o que devia fazer. Saber nunca foi o problema.
Para onde
essa carruagem vai
A carruagem tem asas.
“A propriedade natural da asa é levar para cima o que é pesado.”
Asa é coisa que
cresce ou seca.
Para Platão, as asas da alma se alimentam do que é belo, verdadeiro e bom, e definham com a feiura e a maldade. A sua capacidade de subir não é fixa: ela depende do que você anda comendo com os olhos e os ouvidos.
Com o que você tem alimentado a asa que te levaria?
A rédea é o espaço
entre o impulso e o ato.
Frankl dizia que entre o estímulo e a resposta existe um espaço, e que dentro dele mora a liberdade. É um espaço curto, de poucos segundos, e ele se treina. Mas há uma condição: o cocheiro só puxa a rédea se souber para onde está indo.
Quem não tem destino não tem por que segurar cavalo nenhum.
Nomear o cavalo,
em voz alta.
- 01 Conte ao colega uma situação real desta semana em que o cavalo preto ganhou. Sem nome de ninguém.
- 02 O colega faz só duas perguntas: qual cavalo estava puxando? e onde estava o cocheiro?
- 03 Trocam. Três minutos para cada um.
- 04 Não é para resolver nada. É só para nomear em voz alta o que costuma acontecer no escuro.
Quatro rédeas
que dá para treinar.
Escreva, sem mostrar
a ninguém.
Você não escolheu
os seus cavalos.
Ninguém escolhe a parelha que recebeu: o temperamento, a fome, o cansaço, o gênio curto às sete da manhã. Isso veio atrelado. A rédea, essa não veio presa em ninguém — ela fica na mão de quem quiser pegar.
Dois mil e quatrocentos anos depois, a carruagem é a mesma. A pergunta também: quem está segurando a rédea agora?